CONTINUAÇÃO 2ª PARTE

OS POEMAS DE FORMA FIXA

 

CONCEITOS E TIPOS

   

Poema de forma fixa é o que apresenta um sistema de estrofes subordinado a certas regras. 

 

Muitos desses sistemas têm sofrido alterações em sua estrutura através dos tempos. 

 

Vejamos os modelos teóricos fundamentais:

 

Poema com número determinado de estrofes e com formas estróficas também determinadas.

 Ex.: o soneto, a décima clássica, a sextina e o rondó

 

Desses, o mais importante é o soneto, que apresenta duas variedades: o italiano e o inglês. 

 

O soneto italiano, mais generalizado em nossa língua, compõe-se de quatorze versos

distribuídos em quatro estrofes: dois quartetos e dois tercetos. 

 

No soneto clássico, os quartetos apresentam duas rimas e os tercetos duas ou três.

 

Eis os esquemas mais usuais: abba / abba; abab / abab, para os quartetos. 

 

E para os tercetos: cdc / dcd; cde / cde; ccd / ccd. Eis um exemplo:

 

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

-  "Quem me dera que fosse aquela loura estrela, 

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela"

 Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

 

-  "Pudesse eu copiar o transparente lume, 

Que, da grega coluna à gótica janela, 

Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" 

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

 

-   "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela 

Claridade imortal, que toda a luz resume!"

 Mas o sol, inclinando a rútila capela:

 

-  "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... 

Enfara-me esta azul e desmedida umbela ... 

Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

(Machado de Assis)

   

Esquema de rima: abba / abba, para os quartetos. Para os tercetos: cdc / dcd.

 

O soneto inglês, compõe-se de três quartetos e um dístico final. 

Esquema de rima: abab / cdcd / efef / gg ou abba / cddc / efef / gg. Ex.:

  Apavorado acordo em treva. O luar

É como o espectro do meu sonho em mim

E sem destino, e louco, sou o mar

Patético, sonâmbulo e sem fim.

 

Desço da noite, envolto em sono; e os braços

Como ímãs, atraio o firmamento

Enquanto os bruxos, velhos e devassos,

Assoviam de mim na voz do vento.

 

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe

Sem dimensão e sem razão me leva

Para o silêncio onde o Silêncio dorme

 

Enorme. E como o mar dentro da treva

Num constante arremesso largo e aflito

Eu me espedaço em vão contra o infinito.

(Vinicius de Morais)

 

Embora a disposição das estrofes obedeça à forma italiana, 

o esquema de rima nos indica que se trata de um soneto inglês: abab / cdcd / efe / jgg. 

 

Vejamos, em seguida, um exemplo de sextina, que é um poema de forma fixa 

formado de seis estrofes de seis versos cada uma, 

concluindo-se a composição com uma estrofe de três versos. 

 

As rimas consistem na repetição das mesmas palavras no final dos versos de todas as estrofes,

 repetindo-se também no final dos hemistíquios de cada verso do remate.

 

Repete-se ainda no primeiro verso de cada estrofe (ou no primeiro hemistíquio do verso inicial do remate)

 a palavra final do último verso da estrofe anterior. 

 

Atribui-se a invenção da sextina ao provençal Arnaut Daniel. Ex.:

 

  SEXTINA

  Foge-me pouco a pouco a curta vida 

(se por caso é verdade que inda vivo);

vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos; 

choro pelo passado e quando falo, 

se me passam os dias passo e passo, 

vai-se-me, enfim, a idéia e fica a pena.

 

Que maneira tão áspera de pena!

Que nunca úa hora viu tão longa vida 

em que possa do mal mover-se um passo. 

Que mais me monta ser morto que vivo? 

Para que choro, enfim? Para que falo, 

se lograr-me não pude de meus olhos?

 

Ó fermosos, gentis e claros olhos, 

cuja ausência me move a tanta pena 

quanta se não compreende enquanto falo!

 Se, no fim de tão longa e curta vida, 

de vós m'inda inflamasse o raio vivo, 

por bem teria tudo quanto passo.

 

Mas bem sei, que primeiro o extremo passo 

me há-de vir a cerrar os tristes olhos 

que Amor me mostre aqueles por que vivo. 

Testemunhas serão a tinta e pena, 

que escreveram de tão molesta vida 

o menos que passei e o mais que falo.

 

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!

 Que se de um pensamento n'outro passo, 

vejo tão triste gênero de vida

que, se não lhe não valerem tantos olhos, 

não posso imaginar qual seja a pena 

que traslade esta pena com que vivo.

 

N'alma tenho contino um fogo vivo, 

que, se não respirasse no que falo, 

estaria já feita cinza e pena; 

mas, sobre a maior dor que sofro e passo, 

me temperam as lágrimas dos olhos 

com que, fugindo, não se acaba a vida.

 

  Morrendo estou na vida, e em morte vivo;

 vejo sem olhos, e sem língua falo;

e juntamente passo glória e pena.

  (Luís de Camões). 

 

Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Costa Pimpão. Coimbra, 1953, pp. 328 / 329.

 

 Poemas com número variável de estrofes, mas com formas estróficas fixas. Ex.: trioleto e terza rima. 

 

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